Quando o cliente adapta seu produto, o que isso revela sobre a sua marca?

Os meiões rasgados que diversos jogadores passaram a usar durante competições internacionais chamaram atenção de quem assistia aos jogos.

A reação mais comum foi imaginar um problema de qualidade.

Mas a explicação era outra.

Os cortes eram feitos pelos próprios atletas, de forma intencional, para reduzir a compressão nas panturrilhas, aumentar o conforto ou simplesmente porque aquele formato fazia mais sentido para sua rotina de jogo.

O caso levanta uma questão que vai muito além do futebol.

O que uma marca deve fazer quando o cliente começa a modificar seu produto?

Mudar o produto?

Ignorar o comportamento?

Ou enxergar ali uma oportunidade de aprendizado?

Essa é uma das perguntas mais importantes do marketing de produtos.

O cliente sempre encontra um jeito de adaptar

Poucos produtos são utilizados exatamente da forma como foram projetados.

Consumidores improvisam.

Criam novos usos.

Eliminam funcionalidades.

Adicionam acessórios.

Transformam completamente a experiência original.

Existem pessoas que compram caminhonetes e nunca utilizam a caçamba.

Há quem adquira relógios inteligentes apenas para ver as horas.

Tênis de corrida viram calçados casuais.

Ferramentas domésticas ganham funções que seus fabricantes jamais imaginaram.

Esses comportamentos são conhecidos no mercado como user innovation ou innovation by users. Pesquisadores como Eric von Hippel, do MIT, demonstram há décadas que muitos avanços em produtos surgem justamente das adaptações feitas pelos próprios usuários, e não apenas dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento.

O consumidor, muitas vezes, identifica necessidades que a empresa ainda não percebeu.

Nem toda adaptação representa um problema

Existe um erro comum nas empresas.

Interpretar qualquer alteração feita pelo cliente como uma falha do produto.

Nem sempre é.

Às vezes, trata-se apenas de uma personalização.

Em outros casos, a adaptação atende necessidades muito específicas de determinados públicos.

Isso não significa que toda marca deva redesenhar seu portfólio para atender exceções.

O desafio está em entender por que aquela mudança aconteceu.

Foi uma limitação do produto?

Um novo hábito?

Uma necessidade ainda não atendida?

Ou apenas uma preferência individual?

Responder essas perguntas costuma ser muito mais valioso do que simplesmente corrigir o produto.

O marketing começa quando a observação substitui a opinião

Empresas costumam investir muito tempo perguntando aos consumidores o que eles querem.

Mas observar o que eles realmente fazem costuma produzir respostas muito melhores.

Esse princípio está presente em metodologias como Design Thinking, Customer Development e Jobs to Be Done.

O comportamento real frequentemente contradiz aquilo que as pessoas dizem em pesquisas.

Por isso, algumas das maiores oportunidades de inovação aparecem fora dos formulários.

Elas surgem no uso cotidiano.

Nas adaptações.

Nos improvisos.

Nas soluções que os próprios clientes desenvolvem para resolver seus problemas.

Quem observa esses sinais consegue antecipar tendências.

Quem ignora tende a descobrir as mudanças quando o mercado já mudou.

Nem toda exceção deve virar estratégia

Existe, porém, outro risco.

Modificar um produto para atender um grupo muito pequeno de consumidores.

Nem toda demanda merece uma nova linha de produção.

Nem todo comportamento representa uma tendência.

O papel da estratégia é distinguir um caso isolado de um movimento consistente.

Marcas fortes não atendem todos os pedidos.

Elas identificam quais mudanças fortalecem sua proposta de valor e quais apenas aumentam a complexidade da operação.

Essa decisão exige dados, pesquisa e clareza de posicionamento.

Sem isso, a empresa passa a reagir ao mercado em vez de liderá-lo.

O consumidor revela caminhos que os relatórios não mostram

Os meiões rasgados não são, necessariamente, um problema para as fabricantes de material esportivo.

Eles são um comportamento.

E todo comportamento merece investigação antes de qualquer decisão.

Talvez exista uma oportunidade de inovação.

Talvez não.

Mas ignorar esse tipo de sinal costuma ser mais perigoso do que observá-lo.

Porque produtos não evoluem apenas dentro dos laboratórios.

Eles evoluem no contato diário com quem os utiliza.

É nesse espaço entre o planejamento da empresa e a criatividade do consumidor que surgem alguns dos maiores aprendizados do marketing.

O melhor insight raramente nasce na sala de reunião

Muitas empresas acreditam que inovação depende exclusivamente de tecnologia, investimento ou criatividade.

Na prática, ela costuma começar com uma pergunta simples:

“Por que nossos clientes fazem isso?”

Marcas que desenvolvem esse olhar deixam de enxergar comportamentos como desvios e passam a tratá-los como fontes de inteligência competitiva.

Na BDDB, acreditamos que estratégia de marca começa pela capacidade de interpretar comportamentos antes de transformá-los em decisões. Não basta analisar dados ou acompanhar tendências. É preciso entender o que cada comportamento revela sobre as pessoas, o mercado e as oportunidades que ainda não foram exploradas. É essa leitura estratégica que transforma observações aparentemente simples em vantagem competitiva para as marcas.

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