A Serasa não contratou Rochelle. Contratou uma memória coletiva.

O que a Serasa mostra sobre o poder da cultura pop na construção de atenção.

Você provavelmente não precisa de contexto para entender Rochelle.

Basta Tichina Arnold aparecer com aquela expressão de poucos amigos e alguma coisa acontece antes mesmo de ela dizer qualquer palavra.

Você já sabe quem está chegando.

Sabe que dinheiro pode virar assunto.

Sabe que economia pode virar discussão.

Sabe que alguém provavelmente vai gastar mais do que deveria.

E, principalmente, sabe que Rochelle não vai deixar barato.

Foi exatamente esse repertório que a Serasa colocou para trabalhar em sua campanha “Todo Mundo Ama Cupom”, criada para comunicar cupons de desconto adicionais na negociação de determinadas dívidas pelo Serasa Limpa Nome.

Tichina Arnold, eternizada no imaginário brasileiro como Rochelle em Todo Mundo Odeia o Chris, viaja ao Brasil, se encanta com experiências e produtos, começa a gastar e vê os boletos se acumularem. Até que entra em cena o Boletinho, mascote da Serasa, apresentando a possibilidade de negociar determinadas dívidas com cupom.

Divertido? Sim.

Nostálgico? Evidentemente.

Mas reduzir essa campanha a uma boa escolha de celebridade seria perder justamente o que ela tem de mais interessante.

A Serasa não comprou apenas alcance. Comprou contexto.

E contexto, em um mercado onde todo mundo está desesperadamente tentando conquistar alguns segundos de atenção, vale muito.

Antes da campanha começar, metade da história já foi contada

Imagine que a Serasa tivesse criado uma personagem inédita.

Uma mãe de família extremamente econômica, preocupada com cada centavo, acostumada a controlar gastos e capaz de transformar qualquer situação financeira em humor.

Seria preciso apresentá-la.

Construir sua personalidade.

Estabelecer seus códigos.

Fazer o público entendê-la.

Criar identificação.

Talvez fossem necessários vários filmes até que aquela personagem começasse a ocupar algum espaço na memória coletiva.

Com Rochelle, tudo isso já existe.

São anos de episódios, reprises, memes, cortes, frases, dublagens e referências circulando pela cultura brasileira.

Todo Mundo Odeia o Chris desenvolveu uma relação incomum com o Brasil. A série, originalmente exibida nos Estados Unidos entre 2005 e 2009, tornou-se especialmente popular por aqui e continuou circulando durante anos na televisão e nas redes sociais. O próprio elenco já comentou repetidamente sobre a intensidade da relação dos fãs brasileiros com a produção.

Quando Rochelle aparece em uma campanha sobre dinheiro, portanto, o cérebro não começa do zero.

Ele completa a história.

É isso que torna a escolha tão eficiente.

A personagem chega carregada de significado.

E publicidade adora segundos.

Cultura pop pode funcionar como mídia antes mesmo da mídia

Existe uma maneira interessante de enxergar esse case.

Normalmente pensamos em mídia como aquilo que distribui uma mensagem.

TV.

YouTube.

Instagram.

TikTok.

OOH.

Search.

Portais.

Mas existe outra camada acontecendo antes da distribuição.

A memória.

Quando uma marca aciona um código cultural extremamente conhecido, parte da comunicação já está dentro da cabeça das pessoas.

O Ehrenberg-Bass Institute, uma das principais referências mundiais em ciência de marketing, estuda justamente como estruturas de memória influenciam nossa capacidade de notar e recuperar marcas. Um dos pontos defendidos pelo instituto é que aquilo que já existe na memória interfere diretamente no que conseguimos perceber com maior facilidade.

Isso não significa que Rochelle seja um ativo distintivo da Serasa. Evidentemente não é.

Mas ajuda a entender o mecanismo.

A campanha entra por uma estrutura de memória extremamente forte e familiar e, a partir dela, tenta construir uma nova associação:

Rochelle → dinheiro → economia → cupom → negociação → Serasa.

É uma ponte.

A cultura entrega um lado.

A estratégia precisa construir o outro.

Por isso, talvez seja mais interessante pensar a cultura pop não apenas como fonte de referências criativas, mas como um enorme banco de significados previamente construídos.

Personagens significam coisas.

Músicas significam coisas.

Filmes significam coisas.

Memes significam coisas.

Objetos, cenas, bordões e personalidades carregam associações.

A questão estratégica não é simplesmente perguntar qual deles está famoso.

É perguntar:

qual deles significa alguma coisa que pode ajudar a minha marca a contar sua história?

Essa pergunta muda completamente o jogo.

Elenco de “Todo Mundo Odeia o Chris” (2005)

O famoso certo não é necessariamente o mais famoso

Marcas costumam analisar celebridades olhando para métricas bastante óbvias.

Alcance.

Seguidores.

Engajamento.

Afinidade demográfica.

Visibilidade.

Reputação.

Tudo isso importa.

Mas existe uma variável menos quantitativa e, muitas vezes, mais poderosa:

significado cultural.

O que aquela pessoa ou personagem representa?

Que associações aparecem quando ela entra em cena?

Que histórias o público já conhece?

Que comportamento esperamos dela?

Que emoções ela desperta?

Que códigos consegue ativar sem precisar explicar?

A escolha de Tichina Arnold funciona justamente porque existe coerência entre personagem e assunto.

Rochelle não foi escolhida para vender uma solução financeira apesar de sua história.

Foi escolhida justamente por causa dela.

Sua relação com dinheiro, economia doméstica e os perrengues financeiros da família está profundamente incorporada ao imaginário da série.

Isso transforma o casting em parte da ideia.

Existe uma diferença enorme entre:

“Olha quem está na nossa campanha.”

e:

“É óbvio que essa pessoa deveria estar nessa campanha.”

Quando o público chega à segunda conclusão, a estratégia encontrou alguma coisa.

Nostalgia chama atenção. Pertinência faz a marca ficar.

É aqui que muitas marcas tropeçam.

A nostalgia virou uma moeda valiosa.

O entretenimento está cheio de remakes, reencontros, reboots e retornos. A publicidade recupera músicas antigas, embalagens, personagens e estéticas de outras décadas. Redes sociais transformam referências de vinte anos atrás em memes novos todos os dias.

Existe uma razão óbvia.

Reconhecer é prazeroso.

O familiar exige menos esforço.

Ele abre uma porta emocional rapidamente.

O problema é que nostalgia sem estratégia pode gerar um fenômeno bastante perigoso:

todo mundo lembra da referência e ninguém lembra da marca.

A campanha vira assunto.

A celebridade vira assunto.

O meme vira assunto.

O anunciante fica olhando de fora para uma conversa que ele mesmo pagou para começar.

Por isso, cultura pop não pode ser apenas decoração.

Ela precisa cumprir uma função.

No caso da Serasa, a referência ajuda a explicar a própria proposta.

Cupom também não foi colocado na campanha arbitrariamente. Pesquisa divulgada pela empresa em parceria com o Opinion Box indicou que 70% dos entrevistados afirmam economizar mensalmente usando cupons, enquanto 73% disseram já ter desistido de uma compra por não encontrar um cupom válido. A campanha acompanha uma iniciativa com mais de 80 milhões de ofertas com desconto extra disponíveis para mais de 15 milhões de consumidores elegíveis à negociação de dívidas.

Agora as peças começam a se encaixar.

Existe um comportamento real: brasileiros gostam de desconto.

Existe um produto real: cupons aplicáveis a determinadas negociações.

Existe uma tensão real: dívida é um assunto difícil.

Existe um código cultural familiar: Rochelle e sua relação com dinheiro.

Existe uma marca capaz de conectar tudo isso: Serasa.

Isso é muito mais interessante do que simplesmente contratar uma celebridade.

Humor aqui não serve apenas para fazer rir

Existe outra camada importante.

Dívida pesa.

Ela pode carregar preocupação, constrangimento, medo, ansiedade e sensação de perda de controle.

Isso cria um desafio particularmente difícil para uma marca como a Serasa.

Como falar sobre o problema sem torná-lo ainda mais pesado?

A campanha encontra uma saída por meio do humor.

Mas existe uma sutileza importante.

A piada não está em rir de quem está endividado.

A graça está em colocar uma personagem culturalmente reconhecida dentro de uma situação que combina perfeitamente com aquilo que esperamos dela.

Isso reduz a tensão.

Abre uma conversa.

Cria proximidade.

E permite explicar um benefício financeiro sem transformar a comunicação em mais um lembrete ameaçador de que existem contas esperando para serem pagas.

Nesse contexto, humor não é apenas tom de voz.

É uma ferramenta para diminuir a resistência em torno de um tema difícil.

E isso também é estratégia.

Os melhores detalhes da campanha não são detalhes

A produção ainda preserva códigos importantes para aumentar essa sensação de familiaridade.

A campanha foi gravada em Hollywood, marcando a primeira produção publicitária internacional da Serasa, e recuperou Guilene Conte, voz brasileira de Tichina Arnold e Rochelle, além de Philippe Maia, responsável pela narração de Todo Mundo Odeia o Chris na versão brasileira.

Isso é particularmente inteligente.

Porque nostalgia não é apenas imagem.

É som.

É voz.

É ritmo.

É memória sensorial.

Trocar a dublagem provavelmente manteria Tichina Arnold na tela, mas perderia uma parcela importante de Rochelle dentro da cabeça do público brasileiro.

A campanha ainda se desdobra em conteúdos de educação financeira com a atriz, influenciadores e uma ação de seeding com o perfume “Puro Cupom”, novamente aproveitando referências associadas ao universo da série.

Perceba a diferença.

A ideia não termina no comercial.

Existe um território criativo capaz de gerar desdobramentos.

Esse é outro bom teste para avaliar a força de um conceito.

Ideias frágeis produzem peças. Ideias fortes produzem sistemas.

Existe uma fórmula aqui? Felizmente, não.

Depois de um case assim, alguém inevitavelmente perguntará:

“Qual personagem antigo a nossa marca poderia trazer?”

E essa talvez seja a pior conclusão possível.

Porque estratégia não é reproduzir a superfície de uma ideia.

Se todas as empresas começarem amanhã a resgatar personagens de sitcoms dos anos 2000, teremos muita nostalgia e pouquíssima relevância.

O que vale copiar é o raciocínio.

A Serasa parece ter começado pela conexão.

Não pela celebridade.

Isso sugere uma sequência muito mais interessante para pensar comunicação:

primeiro, entenda o comportamento que existe.

Depois, encontre a tensão da categoria.

Entenda o que sua marca realmente tem para oferecer.

Mapeie os códigos culturais capazes de aproximar essas coisas.

E só então transforme essa interseção em criatividade.

Quando a ordem se inverte, cultura vira fantasia.

Quando a ordem funciona, cultura vira estratégia.

Leia também: Marketing de ocasião: quando copiar todo mundo faz sua marca desaparecer.

É exatamente nesse ponto que a BDDB gosta de entrar

Na BDDB, acreditamos que uma das funções mais importantes da estratégia é encontrar conexões que ainda não parecem óbvias.

Porque campanhas não existem no vazio.

Marcas disputam espaço dentro de uma cultura que já está completamente preenchida por referências, comportamentos, conversas, símbolos, hábitos e memórias.

Por isso, nosso trabalho não começa simplesmente perguntando:

“O que vamos comunicar?”

Tentamos ir além.

O que está acontecendo na cultura?

O que as pessoas já entendem?

Que comportamento está mudando?

Que códigos essa categoria repete até a exaustão?

Que conversa ninguém está conduzindo?

Que patrimônio a própria marca já possui?

Que associação poderíamos construir?

E onde existe um encontro legítimo entre negócio, marca, comportamento e cultura?

Esse último ponto importa muito.

Porque uma boa referência cultural pode gerar atenção.

Mas uma boa estratégia precisa garantir que essa atenção tenha para onde ir.

Branding constrói memória.

Estratégia organiza significado.

Criatividade transforma significado em algo que merece atenção.

Conteúdo prolonga a conversa.

Mídia distribui.

Performance captura demanda.

SEO e GEO fazem a marca ser encontrada quando essa demanda se manifesta em mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial.

Não são disciplinas isoladas.

São partes diferentes da mesma construção.

O problema aparece quando começamos pela ponta errada.

Quando perguntamos qual trend usar antes de saber qual posição ocupar.

Qual influenciador contratar antes de entender qual significado precisamos construir.

Qual plataforma priorizar antes de decidir o que realmente temos para dizer.

Ou quanto investir em mídia antes de descobrir se a ideia merece ser amplificada.

Distribuir uma ideia fraca com eficiência continua sendo distribuir uma ideia fraca.

Cultura pop não é um atalho para parecer relevante

É um atalho para acessar significado.

Essa distinção talvez seja a principal provocação deixada pela campanha da Serasa.

Marcas não precisam colocar memes em apresentações para provar que entendem a internet.

Não precisam entrar em todas as trends.

Não precisam fazer referência a cada série que viraliza.

Não precisam contratar o personagem que o algoritmo ressuscitou naquela semana.

Precisam desenvolver repertório suficiente para perceber quando existe uma conexão cultural que realmente pode servir à estratégia.

Porque cultura pop é poderosa justamente por aquilo que já carrega.

Memória.

Afeto.

Reconhecimento.

Identidade.

Contexto.

Quando uma marca encontra a referência certa, não precisa construir tudo do zero.

Parte do significado já está dentro da cabeça das pessoas.

Mas ainda existe uma responsabilidade fundamental:

fazer esse significado chegar até a marca.

A Serasa não simplesmente colocou Rochelle em um comercial.

Conectou aquilo que lembramos dela a uma verdade do produto, a um comportamento do consumidor e a um problema que a empresa ajuda a resolver.

É aí que nostalgia deixa de ser nostalgia.

Casting deixa de ser casting.

E cultura deixa de ser decoração.

Tudo passa a trabalhar para a ideia.

Talvez por isso a reação mais valiosa a uma campanha como essa não seja:

“Que legal, trouxeram a Rochelle.”

É algo muito mais poderoso:

“Claro que tinha que ser ela.”

Quando o público chega sozinho a essa conclusão, a comunicação já percorreu uma distância enorme.

Porque atenção pode ser interrompida.

Pode ser comprada.

Pode ser segmentada.

Pode até ser otimizada por algoritmo.

Mas quando uma ideia encontra algo que já vive na memória das pessoas, ela não precisa simplesmente pedir atenção.

Ela começa a conversa de dentro.

 

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