Quando um número ganha destaque, o risco é olhar para ele de forma isolada.
A média salarial de R$ 4,3 mil nas agências brasileiras, apontada pela Fenapro, parece dizer algo sobre remuneração. Mas, na prática, revela algo muito maior: o modelo de funcionamento do próprio mercado.
Porque salário não é só pagamento. É consequência.
O mercado que se estruturou para ser enxuto
A maior parte das agências no Brasil não opera com grandes equipes.
São estruturas menores, mais flexíveis e, muitas vezes, pressionadas por margens reduzidas.
Isso impacta diretamente a forma como essas empresas contratam, remuneram e crescem.
Não se trata apenas de “pagar pouco”.
Trata-se de um sistema que foi desenhado para funcionar com custos controlados e alta entrega.
O problema é que esse modelo cobra um preço.
A equação silenciosa: mais demanda, menos estrutura
Nos últimos anos, o marketing se expandiu.
Mais canais, mais formatos, mais plataformas, mais pressão por resultado.
Ao mesmo tempo, muitas agências não cresceram na mesma proporção.
O resultado é uma equação silenciosa:
- mais demanda
- menos estrutura
- maior exigência por performance
Isso transforma o perfil do profissional e também a forma como ele é valorizado.
O novo perfil não cabe na remuneração antiga
Hoje, espera-se que profissionais de marketing e comunicação façam muito mais do que antes.
Não basta planejar.
É preciso executar, analisar, adaptar e entregar resultado.
Esse acúmulo de funções cria um desalinhamento claro: o nível de exigência aumentou, mas a estrutura de remuneração não acompanhou no mesmo ritmo.
E esse é um dos principais pontos de tensão do mercado atual.
Não é só sobre salário. É sobre modelo de valor
Discutir remuneração sem discutir modelo de negócio é olhar apenas para o sintoma.
Agências historicamente operam com lógica de prestação de serviço, muitas vezes baseada em horas, entregas e volume.
Isso limita o potencial de escala e, consequentemente, de remuneração.
Enquanto o valor percebido estiver atrelado à execução operacional, o crescimento tende a ser restrito.
Por outro lado, quando a agência atua de forma mais estratégica — influenciando decisões de negócio — o espaço para valorização muda.
O impacto na retenção de talentos
Esse cenário cria um efeito previsível: dificuldade de retenção.
Profissionais qualificados buscam ambientes que ofereçam:
- crescimento financeiro
- desenvolvimento de carreira
- equilíbrio de carga de trabalho
- reconhecimento proporcional à entrega
Quando isso não acontece, o mercado se movimenta.
E as agências passam a competir não só entre si, mas com empresas, startups e modelos independentes.
A transformação já começou
O próprio estudo aponta mudanças importantes.
Mais abertura para modelos flexíveis.
Estruturas menos rígidas.
Novas formas de contratação.
Isso indica que o mercado está se ajustando. Mas ainda de forma gradual.
Porque mudar remuneração exige mudar algo mais profundo: como valor é gerado e capturado.
A provocação que o mercado evita
É fácil discutir salário.
Mais difícil é questionar o modelo que sustenta esse salário.
Enquanto agências continuarem operando com lógica de alta demanda e baixa margem, o teto de crescimento, tanto do negócio quanto das pessoas, permanece limitado.
No fim, a pergunta não é apenas quanto o mercado paga.
É: quanto valor ele realmente está construindo?
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