Influenciador agora é profissão? O que a nova lei revela sobre a creator economy no Brasil

Por muito tempo, o trabalho digital viveu num limbo conveniente. Geração de valor real, impacto econômico mensurável, mas sem nome, sem enquadramento, sem reconhecimento formal. Era fácil tratar como hobby, improviso ou moda passageira.

A sanção da Lei nº 15.325/2026 muda esse jogo.

E não apenas do ponto de vista jurídico.

Ela obriga o mercado a encarar uma pergunta que sempre evitou: quem vive de conteúdo é só influenciador ou já é profissional há muito tempo?

O que a lei reconhece (e o mercado fingia não ver)

A nova legislação estabelece diretrizes claras para quem atua em:

  • criação e produção de conteúdo
  • captação e edição
  • gestão e distribuição de conteúdos digitais
  • produção de textos, imagens, vídeos, animações e interfaces
  • desenvolvimento de sites
  • gestão de redes sociais
  • direção de conteúdo audiovisual para ambientes digitais

Todos passam a ser reconhecidos legalmente como Profissionais Multimídia.

Isso não cria o trabalho. Reconhece o que já existia.

O ponto central não é o nome da profissão, mas o deslocamento simbólico: o que antes era tratado como “influencer”, “criador”, “freela digital” ou “quem mexe com internet” agora entra no campo formal do trabalho.

Influenciador é rótulo. Profissão é função.

A provocação que circula — “influenciador agora é profissão?” — revela mais confusão do que clareza.

Influenciador descreve alcance. Profissão descreve função, responsabilidade e valor gerado.

A lei não legitima fama. Ela legitima processo.

Planejar, produzir, editar, distribuir e sustentar conteúdo em múltiplas plataformas exige método, repertório, técnica e visão estratégica. Não é carisma. É trabalho.

O problema é que o mercado se acostumou a pagar visibilidade como se fosse improviso — e a cobrar entrega como se fosse indústria.

A lei expõe essa contradição.

Creator economy saiu do discurso e entrou no contrato

Durante anos, a creator economy foi celebrada em palestras, relatórios e apresentações bonitas. Mas, na prática, seguia frágil:

  • relações informais
  • contratos confusos
  • expectativas desalinhadas
  • responsabilidade sem proteção

O reconhecimento legal não resolve tudo — mas muda o eixo.

Ele estabelece que conteúdo digital é trabalho estruturado, não subproduto criativo. E isso impacta marcas, agências e plataformas, gostem ou não.

A partir daqui, fica mais difícil sustentar narrativas como:

  • “é só um post”
  • “é só um vídeo”
  • “é só publicar”

Se fosse só isso, não precisaria de lei.

O risco de tratar a lei como selo de glamour

Toda regulamentação corre um risco: ser lida superficialmente.

Aqui, o perigo é transformar o reconhecimento em status simbólico, não em amadurecimento profissional. Chamar todo mundo de “profissional multimídia” sem exigir critério, responsabilidade e visão estratégica esvazia o avanço.

Profissionalização não é título. É prática.

Exige:

  • clareza de escopo
  • entrega consistente
  • entendimento de impacto
  • leitura de negócio

Sem isso, a lei vira apenas mais um post comemorativo.

O que isso muda para marcas e agências

Para quem contrata, a mudança é incômoda — e necessária.

Trabalhar com criadores deixa de ser um acordo informal baseado em alcance e passa a exigir:

  • briefing real
  • expectativa alinhada
  • remuneração coerente
  • visão de longo prazo

Não é sobre burocratizar a criatividade. É sobre parar de tratá-la como favor.

Marcas que entendem isso ganham parceiros. As que ignoram, acumulam ruído.

Conclusão: o conteúdo não ficou sério. O mercado que atrasou.

A Lei nº 15.325/2026 não transforma influenciadores em profissionais. Ela apenas reconhece que o mercado já dependia deles como tal.

A pergunta certa nunca foi se criador é profissão. A pergunta é:

por que demoramos tanto para admitir que sempre foi?

Na BDDB, nossa leitura é direta: quando o trabalho precisa de lei para ser respeitado, o problema não está na atividade — está na forma como o mercado escolheu enxergá-la.

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