A inteligência artificial está mudando a maneira como as pessoas pesquisam, comparam alternativas e descobrem marcas. Diante dessa transformação, uma nova sigla ganhou espaço nas estratégias de marketing digital: GEO, ou Generative Engine Optimization, conjunto de práticas voltadas a ampliar a presença de marcas e conteúdos nas respostas geradas por ferramentas de inteligência artificial.
A promessa parece tentadora. Se os consumidores estão recorrendo a assistentes como ChatGPT e Gemini para encontrar informações e avaliar opções, estar entre as marcas citadas nessas respostas pode representar uma vantagem competitiva. Mas existe uma questão que merece ser feita antes de direcionar orçamento, equipe e recursos para essa frente: essa visibilidade está gerando valor real para o negócio?
Estudos recentes apresentam resultados que colocam essa discussão em perspectiva. Embora o tráfego proveniente de assistentes de IA ainda seja significativamente menor do que o da busca orgânica tradicional em determinadas amostras, há especialistas que defendem que medir apenas cliques significa ignorar parte da influência que esses ambientes podem exercer sobre a percepção e a escolha de uma marca.
O debate, portanto, vai além de decidir entre SEO e GEO. Trata-se de entender como as pessoas estão descobrindo empresas, quais indicadores realmente importam e como construir relevância em um cenário no qual ser encontrado nem sempre significa receber uma visita.
O que os estudos dizem sobre o retorno do GEO?
Uma das principais dificuldades para avaliar o GEO está na diferença entre a visibilidade conquistada nas respostas de IA e o tráfego efetivamente encaminhado aos sites. Para compreender essa relação, vale observar três pesquisas que ajudam a dimensionar o cenário.
1. Tráfego de IA ainda representa uma parcela pequena diante do Google
Em outubro de 2026, a consultora de SEO Marie Haynes publicou uma análise de 12 meses de dados do Google Analytics 4, reunindo mais de 145 milhões de sessões em 100 sites de diferentes tamanhos.
O resultado chamou a atenção: as sessões provenientes do ChatGPT corresponderam a apenas 0,62% do volume gerado pela busca orgânica do Google. Quando outros assistentes de IA foram incluídos, a participação chegou a 0,73%.
A análise também encontrou uma diferença importante nas taxas de conversão. Os visitantes provenientes do ChatGPT converteram a uma taxa de 13,8%, contra 3,02% dos visitantes vindos da busca orgânica. Ainda assim, o Google foi responsável por 96,5% das conversões consideradas na análise dos canais.
Os números mostram duas coisas ao mesmo tempo: visitantes provenientes de IA podem apresentar uma intenção comercial relevante, mas o volume de acessos ainda pode ser insuficiente para competir com canais de aquisição já consolidados.
É importante considerar que esses resultados representam a amostra analisada, e não uma regra universal para todos os setores ou modelos de negócio.
Fonte: Marie Haynes — GEO Is a Distraction
2. A busca orgânica gera muito mais tráfego do que os assistentes de IA
Um benchmark da agência britânica The SEO Works, baseado em 95 sites e dados de setembro de 2025 a agosto de 2026, chegou a uma conclusão semelhante.
O estudo identificou que a busca orgânica gerou 39 vezes mais tráfego do que os assistentes de IA. Em números absolutos, foram aproximadamente 2,83 milhões de sessões orgânicas, contra 72 mil sessões provenientes de assistentes.
Na análise de conversões, considerando um subconjunto de 63 sites com volume suficiente para comparação, o tráfego de IA apresentou uma taxa de conversão de 7,18%, enquanto a busca orgânica registrou 6,08%. Isso representa uma taxa aproximadamente 18% superior para as visitas provenientes de IA nessa amostra específica.
Entretanto, o tráfego de IA converteu pior do que o orgânico em 23 dos 63 sites avaliados. O estudo também identificou diferenças entre segmentos, reforçando que o desempenho depende do contexto de cada negócio.
A interpretação é importante: uma taxa de conversão superior não significa, necessariamente, maior contribuição comercial. Um canal que converte melhor, mas atrai muito menos visitantes, pode continuar gerando menos conversões no total.
Fonte: The SEO Works — AI Referral Traffic Benchmark
3. A presença em IA gera mais buscas pela marca?
Uma terceira questão é se a exposição nas respostas de inteligência artificial estimula pesquisas posteriores pela marca ou aumenta o tráfego direto.
Em uma análise publicada em outubro de 2026, Kevin Indig investigou essa hipótese em quatro marcas, comparando indicadores de visibilidade em IA com buscas pela marca e acessos diretos. O trabalho reuniu 632 testes, considerando diferentes métricas e intervalos de tempo.
Embora algumas correlações iniciais parecessem promissoras, o pesquisador não encontrou uma relação consistente que permitisse atribuir o aumento das buscas ou do tráfego direto à maior visibilidade nas ferramentas de IA.
Isso não prova que a influência inexiste. Significa que, naquela amostra e com aquela metodologia, não foi possível isolar um efeito confiável.
A distinção é fundamental: uma marca aparecer mais nas respostas de IA e registrar crescimento de tráfego no mesmo período não significa, automaticamente, que um resultado tenha causado o outro.
Fonte: Kevin Indig — Does AI Drive More Direct Traffic?
Em conjunto, os estudos indicam que o tráfego de referência proveniente de IA ainda precisa ser avaliado com cautela. Também mostram que a taxa de conversão, isoladamente, não é suficiente para justificar um investimento: volume, custo, qualidade das oportunidades e contribuição para o resultado final precisam entrar na conta.
Se o usuário não clica, a marca deixa de influenciar?
É nesse ponto que surge o principal contraponto à ideia de que o GEO seria uma distração.
Em seu artigo AI Search Is Not a Distraction, It’s a Branding Channel, Mike King, CEO da iPullRank, argumenta que a visibilidade em mecanismos de IA não deve ser avaliada exclusivamente pelas métricas tradicionais de aquisição de tráfego.
A lógica é simples: quando alguém pergunta a um assistente de IA quais empresas oferecem determinada solução, quais produtos merecem consideração ou quais fornecedores atendem a uma necessidade específica, a resposta pode influenciar a percepção do usuário sem gerar um clique imediato.
Uma marca citada pode entrar no conjunto de alternativas consideradas. Uma marca recomendada pode ganhar credibilidade. E uma empresa ausente dessas respostas pode perder a oportunidade de participar de uma etapa importante da pesquisa.
Isso não significa que toda menção produza esses efeitos, nem que a recomendação de uma IA seja suficiente para conquistar a preferência do consumidor. Significa apenas que a jornada de descoberta pode envolver interações que não aparecem integralmente nas métricas tradicionais de tráfego.
O argumento de King ganha relevância quando observado em conjunto com pesquisas sobre o comportamento de busca.
Em julho de 2025, o Pew Research Center publicou uma análise baseada na navegação de 900 adultos nos Estados Unidos. O levantamento identificou que, quando uma busca no Google apresentava um resumo gerado por IA, os usuários clicavam em resultados tradicionais em 8% das visitas, contra 15% nas buscas sem esse recurso. Os links presentes nos próprios resumos receberam cliques em apenas 1% das visitas analisadas.
O estudo não mediu diretamente o impacto do GEO sobre as vendas ou a preferência de marca. No entanto, demonstra uma mudança importante: em determinadas buscas, os usuários conseguem consumir informações sem necessariamente visitar os sites que as fornecem.
Fonte: Pew Research Center — Google Users Are Less Likely to Click on Links When an AI Summary Appears
A conclusão não é que os cliques perderam importância. É que eles não representam, sozinhos, todas as interações que podem influenciar uma decisão de compra.
SEO e GEO: concorrentes ou estratégias complementares?
O debate costuma ser apresentado como uma escolha entre investir no SEO tradicional ou direcionar esforços para a otimização voltada às IAs. Essa oposição, porém, simplifica uma questão mais complexa.
O SEO continua sendo importante para a descoberta orgânica, a estruturação de conteúdo, a experiência de navegação e a construção de autoridade digital. O GEO, por sua vez, busca ampliar a possibilidade de uma marca ser compreendida, mencionada e referenciada nas respostas geradas por sistemas de inteligência artificial.
Há uma área de interseção entre as duas frentes: conteúdo útil e confiável, informações consistentes, páginas bem estruturadas e uma presença digital que ajude mecanismos de busca e sistemas de IA a compreenderem o que uma empresa oferece.
Entretanto, não existe garantia de que boas práticas de SEO resultem automaticamente em citações nas respostas de IA. Cada plataforma pode utilizar sistemas, fontes e critérios diferentes, que também evoluem com o tempo.
Por isso, abandonar uma estratégia orgânica consolidada para apostar integralmente em GEO pode ser uma decisão precipitada. Da mesma forma, ignorar a transformação dos ambientes de busca pode limitar a capacidade de adaptação de uma empresa.
O caminho mais consistente é compreender a função de cada frente dentro da estratégia de marketing e avaliar sua contribuição de acordo com os objetivos do negócio.
Para algumas empresas, isso significará priorizar a eficiência do SEO. Para outras, poderá fazer sentido testar ações específicas para ampliar a presença em IA. Em ambos os casos, a decisão precisa partir de evidências, e não apenas da pressão para acompanhar uma tendência.
O que essa discussão revela sobre o branding?
Até aqui, o debate parece concentrado em canais digitais, tráfego e conversões. Mas existe uma questão anterior a todas elas: por que uma marca seria mencionada, recomendada ou escolhida em primeiro lugar?
A presença em respostas de IA não acontece em um vazio. Os sistemas consultam e sintetizam informações disponíveis em diferentes fontes, e a visibilidade de uma empresa depende, entre outros fatores, de como suas características, soluções e referências são apresentadas no ambiente digital.
Isso torna a consistência das informações importante. Mas também evidencia uma questão estratégica: não basta ser encontrado; é preciso ter algo relevante a comunicar e motivos claros para ser escolhido.
Uma marca que não apresenta diferenciação perceptível pode até conquistar exposição, mas continuará enfrentando dificuldades para justificar sua preferência diante de concorrentes. Uma empresa cuja comunicação muda constantemente pode transmitir sinais contraditórios. E um negócio que não consegue explicar com clareza seu valor terá dificuldade para sustentar uma posição reconhecível no mercado, independentemente do canal utilizado.
É nesse contexto que o branding ganha importância.
Branding não se resume à identidade visual, à frequência das publicações ou ao número de vezes que uma empresa aparece em uma plataforma. Trata-se da gestão estratégica da marca, conectando posicionamento, diferenciação, comunicação e experiência para construir uma percepção coerente ao longo dos pontos de contato.
Quando essa gestão existe, os canais digitais passam a trabalhar a favor de uma direção estratégica. A empresa sabe o que deseja representar, para quem quer ser relevante, quais atributos precisa demonstrar e como sustentar sua proposta de valor na experiência real do cliente.
Sem essa clareza, a presença em novos ambientes corre o risco de se tornar apenas mais uma atividade operacional: produzir conteúdo para aparecer, acompanhar métricas de visibilidade e perseguir algoritmos sem resolver a questão central do negócio.
A tecnologia pode ampliar as possibilidades de descoberta. Não substitui, porém, a necessidade de construir uma marca com identidade, relevância e diferenciação.
Como avaliar o GEO sem confundir visibilidade com resultado?
Se uma empresa decidir testar estratégias de GEO, o primeiro passo não deveria ser contratar uma ferramenta de monitoramento ou estabelecer uma meta genérica de menções. O ponto de partida é definir o que se pretende alcançar.
Uma abordagem mais consistente pode combinar três grupos de indicadores.
1. Visibilidade e presença
Acompanhar em quais perguntas relevantes para o público a marca aparece, quais concorrentes são mencionados, quais fontes são citadas e como a empresa é apresentada nas respostas. Para que a análise seja útil, é importante manter critérios comparáveis entre plataformas, perguntas e períodos.
2. Comportamento e percepção
Observar a evolução das buscas pela marca, do tráfego qualificado e das interações comerciais. Pesquisas com clientes e novos leads também podem ajudar a identificar se ferramentas de IA participaram do processo de descoberta ou consideração.
3. Resultado de negócio
Relacionar os sinais anteriores a indicadores como oportunidades qualificadas, vendas, receita e custo de aquisição. Sempre que possível, testes comparativos e grupos de controle podem ajudar a avaliar se a iniciativa contribuiu efetivamente para os resultados.
Essas medidas precisam ser interpretadas em conjunto. Um aumento nas menções não garante crescimento de preferência. Um aumento nas buscas pela marca não prova, isoladamente, que o GEO foi responsável pelo resultado. E um aumento de conversões precisa ser analisado considerando os investimentos realizados e os demais fatores que influenciaram o desempenho.
A orientação é começar com objetivos delimitados, estabelecer uma referência inicial, acompanhar os resultados e ampliar o investimento somente quando houver sinais consistentes de contribuição para o negócio.
Afinal, vale a pena investir em GEO?
A resposta depende do objetivo, do contexto competitivo e da capacidade de medir resultados.
Se a prioridade é gerar tráfego orgânico e conquistar oportunidades comerciais com uma estratégia já consolidada, os dados apresentados reforçam a importância de não negligenciar o SEO. Em muitas situações, ele continuará sendo a base mais consistente da aquisição orgânica.
Se a empresa atua em um mercado no qual os consumidores utilizam assistentes de IA para pesquisar, comparar fornecedores ou compreender soluções complexas, pode fazer sentido testar iniciativas de GEO. O investimento, porém, precisa ser proporcional à oportunidade identificada e acompanhado de indicadores que permitam avaliar sua contribuição.
Para objetivos de branding, a visibilidade em IA merece atenção porque os ambientes de descoberta estão mudando. Mas isso não significa tratar a exposição como resultado final. O desafio é compreender se a presença conquistada contribui para fortalecer o reconhecimento, a percepção de valor e a consideração da marca.
Mais do que decidir se GEO é uma tendência passageira ou uma prioridade inevitável, as empresas precisam estabelecer critérios para separar experimentação estratégica de investimento sem direção.
A pergunta mais relevante não é simplesmente quantas vezes a marca aparece em uma resposta. É se ela está construindo uma posição mais clara, relevante e competitiva no mercado e se essa evolução contribui para os objetivos do negócio.
Branding estratégico: sua marca está evoluindo ou apenas se mantendo visível?
Na BDDB.ag, entendemos o branding como uma dimensão estratégica do negócio: uma gestão que conecta intenção, diferenciação, experiência e presença de marca para gerar valor de maneira consistente.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas quanto sua marca é conhecida. É se ela está construindo os motivos certos para ser escolhida.
Sua marca está evoluindo ou apenas se mantendo visível?
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